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GRÁFICO

 

O que uma coisa é quem pode sabê-lo?

Assim como o rio ou o passante que já são outros...

 

Estar diante deste “é”, abrindo o mar de especulações, onde surgem as ideias… E sobre as coisas e sob as causas as caudas ideias que pontificam o horizonte de ponto a ponta. A gambiarra é, por suposto, a origem da linguagem. Seu ápice associativo – pré-simbólico, onde um isso + um aquilo gera outro possível, gametas improvisados ou provisórios. A gambiarra é o instante em teste, o alcance da mão, um fio desencapado.

 

Assim, a especulação torna-se um tipo de estado (transito), donde, determinada situação vai gerando outros estados em função de suas necessidades. A gambiarra expressa uma necessidade traduzida pela inteligência numa forma ativa, concreta, íntegra.

Seu desígnio  relaciona-se com a dimensão da estética, da estética da fome, “pobre”, “precária”, porém ilimitada, (pois urgente). Encontra vieses de estilo como pensamento e arte, ver: Schwitters, Bruscky, Dumas, Nassar, Cao Guimarães, Duchamp, Brossa, Beuys, Cage, dentre outros.

 

A gambiarra como pensamento/ação, une “paratáticamente” tais instâncias para uma síntese eficaz – associa e gera. Este estágio d’arte que se pronuncia linguagem via seus gametas de sentido, é a maneira de significar e transformar o mundo mediante um processo simbiótico que busca a sua eficácia na tradução de um estado noutro estado – do estado de ideia = necessidade, para o estado de coisa significada. 

 

A simbiose é o movimento consanguíneo de matéria e sentido girando no coraçãocabeça, uma movência que desencadeia o jogo do pensar/sentir. O fazer é uma eficácia possível, produto de uma intenção ou de uma situação que forma uma algo nalgum lugar, seja no mundo objetivo ou no subjetivo. Ter um insight ideia é um tipo de erosão = fenômeno natural, situacional, des-encadeado, que irrompe a superfície num ato de deformação, de trans-formação. 

Set.2014

As coisas mudam

Desinventar objetos. O pente, por exemplo.

Dar ao pente funções de não pentear. Até que

ele fique à disposição de ser uma begônia.

Ou uma gravanha.

Usar algumas palavras que ainda não tenham

idioma.

(Manoel de Barros)

 

Arcimboldo ouviu o apelo das coisas antes mesmo de sua consumação como gênero pictórico, alcunhada de “natureza morta” no séc. XVII. Ainda assim, não tão instigante como propunha aquele. Dadaístas/surrealistas imprimiriam o absurdo numa lógica que se propunha certa (tal é a natureza do gosto), com seus “objets trouvés”. O peso objetal de suas existências que podem soar extremamente ofensivos por serem (in)exatamente o que são, numa ordem que varia.

 

Munari nos diz do aspecto trans-funcional das coisas, que, quando invertidas e em associações diversas, ganham uma dimensão a qual chamamos fantasia. O princípio da fantasia é a inversão. Um poeta como Joan Brossa, que é um poeta das coisas, da palavra enquanto “coisa” se apresentava como um mágico. Um mágico sabe a língua das coisas, das coisas a língua; manuelísticamente.

 

A ordem dos objetos/coisas os torna, por meio de sua gramática cotidiana própria, por vezes, invisíveis. Farnese de Andrade auscultou o eco mudo das coisas. A obra: uma imperiosa solidão congelada e encerrada numa circunstância de coisa. Em Farnese as coisas são insuportavelmente coisas ainda que travestidas de sua suposta irreversível humanidade. Porém, como canta o poeta Arnaldo Antunes, as coisas não tem paz: “têm peso, massa, volume, tamanho, tempo, forma, cor, posição, textura, duração, densidade, cheiro, valor, consistência, profundidade, contorno, temperatura, função, aparência, preço, destino, idade, sentido”.

 

É por conta de sua propriedade situacional, limítrofe, apropriadas, expropriadas ou desapropriadas para outras instâncias de relação num jogo de dados que não abole o acaso, mas incita um caso, que as coisas podem proverbiar. Seu ruidoso pró-verbio é também um anti-verbio. As coisas, embora de caráter metonímico, falam por si. São sua própria língua num discurso sem curso.

Jun.2015